10 Novembro 2009

O comandante em pausa ali deitado



Não custa nada pá
A bem dizer nem é teu
O corpo em pausa ali deitado
Respiras assistido
E em resumo assistem no que podem
Apagar-te a consciência
A memória a dor
Trabalhar sobre
O corpo ali deitado
É a vitória de Descartes porque a alma
Vai para o lugar das almas das alminhas
E fica em standby até que a chamem
Para depois voltar
Sempre cedo de mais
Ao teu corpo jazente retalhado
Convenientemente preparado
Para a continuação desta história que
Não custa nada pá.

06 Novembro 2009

Inauguração 7/11 - SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE




INAUGURAÇÃO SÁBADO 7/11

PROGRAMA

19H > JANTAR HOTEL BRAGANÇA

22:15 > ESTAÇÃO DE COIMBRA A > Concentração

22:22 > partida > CITAC & MANÉS

22:30 > chegada ESTAÇÃO DE COIMBRA B
Colectivo ERRORISTA > instalação sonora
MIGUEL JANUÁRIO > graffiti [live act]


23:00 – 04:00 > ESTAÇÃO DE COIMBRA B > OFICINAS - CP

23:00
JOSEF B + QIP > massa sonora > execução mecânica aleatória
JOÃO MARQUES FERNANDES/IRENE GONÇALVES> performance
JOÃO VAZ > textos sonoros
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOÃO VASCO PAIVA > vídeo

24:00
BOIALVO [Live act] + LISBON WINTER BLUES [VJ set]

0:30
QUARTETO PAULO PIMENTEL [Jazz]

1:30
MALABARISTAS + CONCERTINAS
JOSEF B + QIP

2:00
LAETITIA MORAIS [Visuais] + BOIALVO [Live act]

2:30 - 4:00
AFONSO MACEDO [DJ Set]

05 Novembro 2009

7/11/2009, 22:15 Estação Coimbra A - 22:45 Estação Coimbra B - 23:00-4:00 Oficinas da CP




O viajante

O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.

A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.

O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.

O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…

Francisco Feio

04 Novembro 2009

Novembro



Apagas a tristeza que assombra a noite
Transmites-me a esperança simples
da salvação dos bonsais
Também tu já és capaz de acreditar
que o amor não está em causa
durante o resumo da Liga Europa

A tua pele de lycra de elastano
E eu a adormecer-te em afrikaans

03 Novembro 2009

Marchar, marchar

Como factor identitário cada país cria um inimigo, para uso dos poderosos , no mesmo pacote da bandeira e da selecção nacional, fazendo-nos crer que temos mais a ver com o Vara, o Loureiro ou o Coelho que com os Benitez, o Benoit Garrel ou o John Samper.
Um bom inimigo dos portugueses é a gripe A e o (H1N1)v 2009. Este H1N1 é um vírus português, um vírus do Sócrates. Olhem para Valença do Minho. A crer nos telejornais é o caos, uma vila medieval no começo da peste. Mas se passarem a fronteira, e a jornalista da TVI, da escola do Gato fedorento fê-lo – o que vemos? Nada. No pasa nada. Não sabem da gripe, se adoecerem adoecem, ora essa, nem percebem bem o interesse da senhora, respondem porque são educados.
Aqui, a gripe ocupa os jornais e os noticiários. Mal aconselhada, a ministra continua a ser a Mãe da gripe, sem ver que a médio prazo se pode tornar na sua Viúva. O inevitável Prós e Contras de segunda –feira demonstrou que não se pode ser bom português e contra a gripe. Eu passo metade do meu tempo a ser interrogado sobre a gripe. E a escrever posts originais como este.
A gripe A é o flagelo de que o país precisava. Para um paísinho, um vírusinho. A vergonha dos Orthomyxoviridae. O H1N1 v 2009 é o inimigo descartável, a Abissínia, a Polónia, a Áustria de Portugal.
Existe, e está dentro de nós. Acabou com os beijinhos. Mas nós já não beijávamos de facto. Encostávamos meia cara displicente ou dizíamos “ beijinhos”- uma saudação que tem a marca dos tempos, falsamente íntima, sem contacto nem risco.
De vez em quando mata. Mas os nossos Institutos rapidamente demonstram que a culpa da morte está no morto. O nosso inimigo é benigno. As vítimas são colaterais, gente que ia a passar e, mesmo sem saber, estava tão secretamente doente que não merecia cá andar. Temos sido leais com o nosso vírus. O H1N1 só mata nas estatísticas, só mata no balanço final. Nenhuma morte individual que não seja desclassificada.
Ele deu-nos uma razão de existir e nós não o deixamos transformar-se em vilão.

Coimbra Z

Coimbra Z





Se numa noite de inverno um viajante leva-nos por uma história que é uma viagem sem fim. Nenhum dos dez romances que a personagem do Leitor, com letra maiúscula, começa a ler, tem fim. Nunca consegue ir além das primeiras páginas. Ou porque o volume tem defeito, ou porque aquele é o único excerto da obra que se conhece… nunca chega ao fim.
A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y
Esses percalços são também uma forma de desmascarar as tramas que se acumulam por detrás de complexas maquinações editoriais. Desorganização de empresas livreiras, burlas de tradutores, redes de espionagem e contra-espionagem, malfeitores, falsários.
E, no entanto, o Leitor, com letra maiúscula, lá se vai movendo por entre as mais surpreendentes maquinações, com um entusiasmo que, diga-se, é cada vez maior.
Nunca consegue esclarecer totalmente a trama, mas não desiste. Quando o livro está quase a terminar, faz-se até uma apologia dos romances que concentram toda a sua energia no início, em sucessivos inícios, sem deixarem nada para depois.
O romance tradicional, com princípio, meio e fim, acabou.
T A V G
O gosto da leitura, esse, permanece, inabalável.
O gosto da pequena história, que não se sabe nem como vai acabar, nem sequer se vai acabar.
O ímpeto vital, aquele ímpeto que leva o Leitor, com letra maiúscula, a perseguir um bocadinho de romance, e mais outro, como quem persegue uma Leitora que se chama Ludmila.
Fragmentos, pedaços de vida.
A automotora parte, mas a viagem não continua, ou continua noutro lugar. Em sucessivos troços.
C D E F G H I J K L M N O P K R S T U V X W
O gosto da pequena viagem, que não se sabe nem como vai acabar, nem sequer se vai acabar.
O ímpeto vital, aquele ímpeto que leva o Viajante a perseguir um bocadinho de trajecto, e mais outro, como quem persegue um alfabeto que concentra toda a sua energia no início, em sucessivos inícios, sem deixar nada para depois, e ao qual faltam muitas letras.

Rita Marnoto

01 Novembro 2009

Francisco, foste adoptado


Alguns jornais são como a TV Rural ou a SIC Notícias.Têm uns avençados, uma espécie de raparigas de escort, a quem recorrem sempre que é preciso comentar um facto, ou um pseudo-facto ou um facto-a-ser.Era o Moita Flores antes do justo reconhecimento do povo escalabitano e o super psico-Sá, aquele rapaz marado pelas guerras antes de ser respeitável e o super-psico-Sá,o Rui Santos e o super-psico Sá, o super-psico Sá. Ontem, num balcão de Estarreja onde jazia um exemplar do JN, dei conta que o super psico-Sá entretinha uma entrevista que enchia a última página do jornal. Sem o benefício da voz encantatória, o super-psico Sá discorria sobre a gripe, os medos, as crianças e outros temas que, para quem está atento, eram os bitaites que as jornalistas pediam ao escort para o fim-de-semana. O super -psico Sá tem visão e preocupações de originalidade. Como o lugar de Mãe está ocupado, de quem é que o super-psico Sá se foi lembrar para aplacar os medos das criancinhas, que como se sabe são os medos de todos nós? De ti, Francisco George, director geral de Saúde, assim por extenso, a acabar a crónica e depois de adjectivos simples mas sinceros, merecidos e enlevados.Com o decaimento do Cavaco temos finalmente, pela mão do super-psico Sá, o Pai que esperávamos,e logo havias de nos calhar tu, Francisco.

O que ainda não se sabe





O que ainda não se sabe é o que aconteceu entre as 17h de terça-feira, altura em que a irmã de Anabela Fernandes alertou a GNR de Lever para o desaparecimento desta e do filho, e a manhã de quarta-feira, quando a mulher foi salva por remadores que treinavam no Douro junto à Ponte de D. Luís. Ainda em estado de choque, Anabela terá dito às autoridades que o filho entrara com ela no rio, sem conseguir especificar as circunstâncias em que tal aconteceu. A criança foi retirada do Douro um dia depois, no Esteiro de Avintes, no local onde também estava o carro da mãe, e a seis quilómetros do local onde ela tinha sido socorrida. Abel Coentrão com T.F./B.C. e Lusa




Entraram no rio, Anabela e o filho, Anabela foi salva pelos remadores, junto à ponte. O que não se sabe é o que aconteceu. Ainda não se sabe. Quem deu pela falta? Quem alertou a GNR? Quem os procurou, de noite? Ainda não se sabe o que fizeram, na tarde e na noite de terça-feira, como dormiram, o que comeram, que disseram um ao outro, o que fazia André enquanto ela escrevia a carta que deixou à beira- rio. O que ainda não se sabe é quantas vezes Anabela olhou para o rio e o que viu nas águas. Ainda não se sabe como desceu as escadas. Como segurava a mão do menino. Como se entra nas águas, como se entra no rio, como a água entra nos pulmões, como a morte é rápida e silenciosa, como a corrente é forte e o corpo de Anabela se afasta do corpo do menino e dispara para a foz, até que os remadores que treinam junto à ponte a recolhem, um vestido branco arrastado pelas águas, uma mulher sozinha com uma mão aberta e, como diria a fonte do Hospital em Gaia, “bastante afectada psicologicamente”.

31 Outubro 2009

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